Dona flor
Hoje, vindo pra cá de manhã, sol de inverno, casaco de lã, pixies tocando, descobri que é possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo. Sempre fui a maior defensora do amor exclusivo da fidelidade e da devoção da alma a uma só pessoa. Mas hoje eu descobri, assombrada, que gosto dos dois. Um é o ex, pai do meu filho, que me tem causado dores de cabeça ultimamente, desde que descobriu o outro. Eu chorei quando ele socou o muro e quis abraçar quando ele chorou. Quis paralisar a rua e a chuva, e o ódio e as mágoas que, caralho, por que a gente deixou a coisa chegar a esse ponto? Ele não fuma. Não bebe muito. Te uma tatuagem que eu dei pra ele de presente porque queria muito ele tatuado. Ele é artista, daquele que não sabe ganhar dinheiro, que não tem iniciativa profissional, que é frustrado por não ganhar dinheiro com o que mais gosta de fazer. Ele gosta de rap, usa calça larga e boné. Fui mãe dele, fui o homem da casa. E mesmo assim quero abraçar ele bem forte quando ele abre os braços pro nosso filho vir correndo e pular nele. Não quero sexo. Não quero carne. Quero a alma de volta pra mim, apesar de saber que não dá mais. Quero que ele fale o que nunca falou. Porque não fala. Sente forte, mas não diz.
O outro é a aventura. O perigo. Aquele que não previa, o furacão. Sinto que ele vai arrancar a minha pele com o dente, sinto o frio na barriga, sinto que vai dar merda. Mas já deu. Já gosto. Já sinto falta e ciumes. E já cheiro a roupa dele que ficou jogada no chão da minha sala. Ele bebe (muito). Fuma. É criatura da noite. Tem tatuagens espalhadas de morder uma por uma. Dele quero arrancar a roupa, a pele, grudar no suor. Com ele não tem limite, a coisa vai até quando eu quiser. É homem, se sustenta, paga pensão pros filhos, me pega em casa, paga a conta do restaurante caro. Me abraça por cima, me chama de linda. Me diz as melhores mentiras do mundo. E eu to começando a querer acreditar. Brinca com o meu filho de espada. Ele é punk, de calça grudada e camiseta listrada. E me dá um medo danado.
São tão opostos que deve ter algo de freudiano nisso. Mas eu seria a dona flor mais feliz do mundo se pudesse dividir minhas noites entre o Sex Pistols e o The Roots, entre a insanidade e a familia feliz. Entre a carne entre os dentes e... ó vida.
O outro é a aventura. O perigo. Aquele que não previa, o furacão. Sinto que ele vai arrancar a minha pele com o dente, sinto o frio na barriga, sinto que vai dar merda. Mas já deu. Já gosto. Já sinto falta e ciumes. E já cheiro a roupa dele que ficou jogada no chão da minha sala. Ele bebe (muito). Fuma. É criatura da noite. Tem tatuagens espalhadas de morder uma por uma. Dele quero arrancar a roupa, a pele, grudar no suor. Com ele não tem limite, a coisa vai até quando eu quiser. É homem, se sustenta, paga pensão pros filhos, me pega em casa, paga a conta do restaurante caro. Me abraça por cima, me chama de linda. Me diz as melhores mentiras do mundo. E eu to começando a querer acreditar. Brinca com o meu filho de espada. Ele é punk, de calça grudada e camiseta listrada. E me dá um medo danado.
São tão opostos que deve ter algo de freudiano nisso. Mas eu seria a dona flor mais feliz do mundo se pudesse dividir minhas noites entre o Sex Pistols e o The Roots, entre a insanidade e a familia feliz. Entre a carne entre os dentes e... ó vida.